Homenagens

HOMENAGENS

Para a edição 2016, o Arquivo em Cartaz homenageia duas personalidades fundamentais para a cultura brasileira, cada uma delas com indiscutível importância em suas áreas de atuação.

No contexto das comemorações dos 100 anos do samba, o escolhido é o jornalista, escritor, produtor cultural e ator Haroldo Costa. Já no âmbito da preservação do patrimônio audiovisual brasileiro, o homenageado é o fotógrafo, montador, pesquisador, conservador e restaurador Francisco Moreira, o Chico, falecido no início deste ano.

As homenagens serão prestadas na abertura oficial do evento que acontece no Arquivo Nacional, dia 7 de novembro, às 19h30.

HAROLDO COSTA

JORNALISTA, ESCRITOR, PRODUTOR CULTURAL, DIRETOR, ATOR

Uma vida de dedicação à arte e à cultura brasileiras, a paixão pelo samba e pelo carnaval, presença marcante na televisão e nos palcos. O Arquivo em Cartaz, em sua segunda edição, homenageia Haroldo Costa, carioca e salgueirense que começou no Teatro Experimental do Negro de Adbias do Nascimentos aos 17 anos. Viajou pelo mundo com a companhia de folclore Brasiliana e, ao retornar, encarnou o personagem título da peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Moraes. A peça estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956, com trilha sonora composta por Tom Jobim. Adaptada a partir do mito clássico de Eurídice e Orfeu, a história é trazida para o mundo do samba e das favelas cariocas.Esse encontro entre Tom Jobim e Vinícius de Moraes marcaria o surgimento da bossa-nova, uma interpretação inovadora de ritmos nacionais, em especial o samba, com influências internacionais. Haroldo Costa interpretaria posteriormente um pequeno, porém marcante, personagem nos palcos: o de Jesus Cristo na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

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Foto: Divulgação

Ainda nos anos 1950, tem sua estreia na rádio MEC com o programa Estampas Brasileiras, e na direção cinematográfica com o filme Pista de Grama.Participa do júri oficial do desfile de escolas de samba até 1963, quando o Salgueiro ganha a sua torcida definitivamente. Passa a comentar o desfile na TV, e na televisão desenvolve também seu lado de diretor e produtor, além de integrar o elenco de telenovelas em algumas emissoras, em especial Globo e Manchete.

Os livros que lançou ao longo da carreira trazem reflexões acerca da cultura brasileira, da inserção do negro na sociedade: Academia do samba(1984), Na cadência do samba (2000), 100 anos de carnaval no Rio de Janeiro (2001),Política e religiões no carnaval(2007), Nação quilombo (2011)são alguns exemplos de obras que lançou. Em 1982, lança a coletânea Fala, crioulo, reunindo depoimentos de negros de diferentes condições sociais, projeto relançado em 2008, com o mesmo nome e novos depoimentos, e a mesma questão: o que é ser negro no Brasil?

Pesquisador da cultura brasileira e seu grande divulgador, personalidade nos palcos, nas telas e telinhas –e também por trás delas –Haroldo Costa e sua diversificada carreira nos ajudam a refletir sobre alguns dos aspectos mais caros àcultura brasileira e, principalmente, a reconhecer o seu extremo dinamismo, sem o qual sua impressionante diversidade talvez não conseguisse se materializar nas manifestações que encontramos Brasil afora.

Além de uma mesa de debate dedicada a sua carreira, Pista de Grama ganhará sessão especial no CineArte UFF. Outros filmes também estão programados: Haroldo Costa, o nosso Orfeu (Sílvio Tendler, 2015); Tanga – Deu no New York Times(Henfil, 1987); e O Samba Mandou me Chamar (Haroldo Costa e Pedro Flores da Cunha, 2012).

FRANCISCO MOREIRA, O CHICO

FOTOGRAFO, MONTADOR,  PESQUISADOR,CONSERVADOR, RESTAURADOR   CINEMATOGRÁFICO                                           

Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, Chico Moreira, iniciou em 1979, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM)sua trajetória profissional no campo da preservação audiovisual, em um tempo em que essa atividade era pouco reconhecida pela própria comunidade cinematográfica.

Um dos pioneiros da atividade no Brasil, Chico Moreira sempre teve como objetivo estabelecer no Rio de Janeiro uma estrutura capaz de restaurar filmes deteriorados. Depois de diversas tentativas frustradas, em 1996 inicia no Centro Técnico Audiovisual, CTAv, uma experiência que resulta em um equipamento capaz de copiar filmes 35 mm deteriorados. Nasce dessa experiência a possibilidade de concretização de seu objetivo.

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Foto: Acervo Pessoal

Chico sai do MAM em 1999, onde ficou conhecido como Chico do MAM, inicia uma trajetória profissional na Labo Cine, com a criação de uma área destinada exclusivamente à restauração de filmes. Aproveita a bem-sucedida experiência do CATv e o primeiro projeto de restauração de filmes no Brasil, baseado em tecnologia físico-química para filmes deteriorados, em um laboratório comercial.

Esse projeto resultou na restauração de diversos filmes de curta, média e longa-metragem, como Aviso aos Navegantes(1950), de Watson Macedo, País de São Saruê (1970), de Vladimir Carvalho, A Hora da Estrela(1985), de Suzana Amaral, Tudo Azul (1951), de Moacyr Fenelon, entre outros. Foi responsável também pela duplicação e geração de internegativos da obra do cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Sua importância para a preservação audiovisual no Brasil não se dá somente pelos filmes restaurados, mas também pelos projetos desenvolvidos em diversos arquivos de filmes, como Arquivo Nacional, Centro Técnico Audiovisual, CTAv, Arquivo Público do Distrito Federal, entre outros.

Com sua partida, o Brasil perde um dos profissionais mais capacitados, com criatividade e uma persistência rara, quepor algumas vezes abriu mão de sua remuneração para a viabilização de um projeto de restauração.

A homenagem ao Chico Moreira é mais uma maneira de reconhecermos sua importância para o cinema brasileiro, especialmente para a preservação audiovisual, neste momento em que vivemos uma grande mudança tecnológica que se impõe de forma a alterar alguns paradigmas estabelecidos e o papel cada vez mais importante dos profissionais que atuam na preservação audiovisual.